É natural do ser humano o desinteresse tardio pelas
iniciativas tomadas sob enganos tidos como acertos que decorrem de uma carreira
pré-estabelecida dotada de ilusões acerca do que se tem como conhecido. Por
fim, a vida deslancha primordialmente do desconhecido e utiliza dos anseios
contidos na emoção para fixar-se como determinação por tempo humanamente
desconhecido.
É certo que, partindo dos princípios adquiridos no berço é
que o que tenho por certeza muda constantemente, implicando ou não na essência
do que tenho por concreto e abstrato, transformando o subjetivo e objetivo e
vice-versa, concluindo-se ser a vida explicitamente subjetiva.
É o significado da vida constituido no encanto da vontade de aprender e ser. É o prazer de ser uma máquina humana em constante funcionamento, buscando e solucionando conflitos sem nunca avistar o fim.
Apenas uma lagarta. Serzinho medonho, nojento, esquisito. Assim muitos pensam. No entanto, arrastar-se, comer folhas, ser feia, ser lagarta é que a faz jovem, na flor da idade.
O tempo passa e assim como passa para todos, implica em mudanças. Algumas drásticas, outras tão pequenas quase impercebíveis ou inexistentes. Inexistentes não por não haver mudanças, mas por não haver tempo.
Para a lagarta a maior mudança consiste em tornar-se borboleta. Ponho-me como uma lagarta pensante que espera por sua mais bela forma sem considerar em primeira instância que seu fim vem cada vez mais perto.
Vejo um espelho diante de mim. São as paredes do meu casulo que me faz refletir. Qual o tamanho da vida? Percebo que o instrumento de medida vai além de qualquer um que dê o peso em quilogramas e o tamanho em quilômetros.A certeza diante de mim é de que a dimensão é impercebível aos meus olhos, aos olhos de uma águia.
(Agora já não sei mais se sou eu ou uma lagarta pensante prestes a se tornar borboleta.)
E eu, lagarta que tenho meu tempo pré-estabelecido primordialmente ao me refugiar no casulo sei que me tornarei borboleta, mas a mais completa metamorfose vem de saber que nova vida terei ainda que a borboleta seja continuidade da lagarta que sou, da lagarta contida na borboleta que até o fim serei.
As paredes do casulo refletem a vida que está por vir e não o meu fim. Não sou uma velha. Sou uma nova borboleta que não vai se contentar com assentar-se sobre a flor e sem esperança esperar que minhas asas sequem junto com a vida.
Não terei saudade da juventude em que me alimentava das folhas, mas ficarei feliz por todo o doce das flores que poderei experimentar.
É o novo começo!
Em que consiste sua metamorfose? O que é o seu casulo? Em que ele te faz refletir? Em que tempo está sua nova vida?
Minha metamorfose está contida na minha vontade de renascer e experimentar o doce das flores depois de conhecer o gosto das folhas.
Meu casulo é um pedaço maior em mim onde toda reflexão se torna fundamento para uma nova vida que começa sempre no agora.
Até o mais livre pensamento pode ficar preso na gaiola da imaginação. O ser é livre para escolher onde se aprisionar.
Lídia Rodrigues
O pássaro azul
– Quem quer comprar o pássaro azul?
– O pássaro azul! repetiram os meninos.
– Quer-me vender? Dou todos os meus brinquedos.
O moleque vendeu.
O menino rico levou a gaiola com o pássaro. De tarde, o tio do menino foi visitá-lo, e ficou tão encantado com o pássaro que propôs:
– Em troca do pássaro azul eu lhe dou um automóvel.
O menino rico aceitou.
Mal o tio levou o pássaro para casa, chegou um amigo banqueiro:
– O pássaro azul… o pássaro da felicidade.
O banqueiro desafiou:
– Vamos disputá-lo num jogo de cartas?
O tio, que estava convencido que aquele era o pássaro azul da felicidade, aceitou. E perdeu.
O banqueiro levou o pássaro azul para o palácio.
– Coloquem-no em uma gaiola de ouro… é o pássaro da felicidade.
Um criado, sabendo que aquele pássaro trazia a felicidade, roubou-o e deu-o de presente a sua noiva:
– È o pássaro da felicidade.
– Vou botá-lo no viveiro do jardim.
Botou.
Um moleque que estava com outros em cima do muro, reconheceu:
– Lá está o meu pássaro azul.
– È ele mesmo.
– Ainda está pintado de azul. A cor não desapareceu.
E o pássaro vendo o lagozinho jogou-se n’água, tomou um banho… e a cor desapareceu.
Quando a moça voltou com o alpiste, ficou espantada:
– Cadê o meu pássaro azul da felicidade?
Em: Contos dos caminhos, Wilson W. Rodrigues, s/d, Estado da Guanabara [RJ]:Torre Editora.
Que a força de um novo calendário empregada a um novo dia chamado de primeiro de um ano que aspira boas novas traga, de fato, a sabedoria de reconhecer que cada minuto pode ser mais que a chance para um recomeço, mas seja aceito como o passo que proporciona andar sempre em frente, viver.
Que as mudanças aconteçam na raiz e que se estendam até as folhas e seus frutos sejam encarregados de alimentar com alimento puro e semear a mudança com a qual foi regada.
Que as promessas deem espaço para as realizações e os votos para um novo ano pronunciados a meia noite se propaguem a cada um dos seus 365 (366) dias.
Afinal o Natal é mais que uma invenção capitalista? Uma data marcada para que a população se torne menos má? Ninguém se torna menos mal no natal, pelo contrário. É possível que se acumule a um só dia a maldade de uma vida inteira.
As luzes, as árvores, papai Noel... Tudo enfeita a cidade até que se mergulha nela...
Enfim, "não pega bem ser realista" nessa época. Os cartões de fim de ano não seriam vendidos se a mensagem fugisse ao clichê ainda que essa não seja lida.
Então, eu desejo um feliz natal e um próspero ano novo.
Gosto do natal de todo dia. Aquele que se presenteia a Cristo fazendo o bem e ficando bem ou que simplesmente se faça o bem e fique bem. De um forma ou de outra o presente sempre é entregue e o beneficiado é quem oferta.
Lídia Rodrigues
Uma noite de paz - Fruto Sagrado
Você já esqueceu do aniversário de quem você ama?
Já esqueceu o nome de alguém que te ama?
Mas chega o fim do ano e é tudo igual.
Eu acho que vocês acham que eu sou débil-mental.
São mais de 300 dias debaixo da opressão.
Medo da guerra, da bala perdida, medo do medo, da solidão.
Eu vejo os shoppings lotados, ruas lotadas.
E avenidas decoradas por corações vazios.
Feliz Natal! Pra criança deixada na rua.
Noite Feliz! Praquele que não tem o que comer.
Feliz Natal! Pro pai desempregado.
Noite sem paz! Praquele que a morte viver.
Uma noite de paz. Uma noite. Uma noite de paz.
Estava desconfortável, escuro e frio.
O cheiro dos animais invadia o curral.
Onde a virgem Maria trouxe ao mundo;
O Príncipe da Paz, o único capaz;
De transformar o caos em harmonia;
A tempestade em calmaria.
Corações sujos como aquela estrebaria;
Em um lindo shopping center decorado pro Natal.
Feliz Natal! O natal que muita gente esqueceu.
Noite Feliz! Pra quem ainda não veio pra festa.
Feliz Natal! O mundo é quem ganhou o presente.
Noite sem paz! Pra quem esqueceu daquele que nunca te esqueceu.
Feliz Natal! Deixe-o nascer em seu coração.
Noite Feliz! O passado fica pra trás.
Feliz Natal! Você é o presente de DEUS.
Noite de paz! A morte morreu de medo ao ver JESUS nascer.
Uma noite de paz. Muito mais que uma noite de paz.
No fundo e nem tão fundo assim, a gente sabe que Deus traça um caminho pra nós e que mesmo no livre arbítrio ele continua nos guiando e o objetivo é sempre um lugar tranquilo.
Mas faz parte desse objetivo que haja as dificuldades, até mesmo pra que possamos enxergar o sentido de tudo.
Não escrevo divinamente bem (e às vezes nem bem escrevo), mas fico divinamente encantada com a possibilidade de colocar num papel tudo. Absolutamente tudo!
O que de grande jamais achei que pudesse sustentar, o pequeno que jamais imaginei poder ver, o abstrato que não pensei tocar, o que de inexistente jamais imaginei poder existir, o que de impronunciável não podia imaginar escrever...
As palavras se juntam aos sentimentos e no contexto fica um pedaço enorme de quem escreve. Daí é que se encontra a maneira mais plena de se expressar ainda que a expressão não fique clara para todos, tanto que é da beleza de escrever que falo.
Consegues imaginar a imensidão de um espaço no qual possa escrever?
A escrita é tão magnífica que fico a apreciar como uma criança que ao descobri-la fica feliz com a possibilidade de colocar uma parede no papel ou de ter um bicho esquisito e enorme no pedacinho de papel só para ela.
Aos especiais, eu desejaria que escrevessem para que fragmentos vivos possam perdurar e se não no momento presente, depois, quem sabe, serem compreendidos, e se não compreendidos na essência de quem escreve/escreveu que seja compreendido conforme a necessidade de quem se deleita no ato de ler.
Escrever é dar significações ao que se expressa. É fazer existir e existir no que se escreve. É libertar-se!
Lídia Rodrigues
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Sei tão pouco desse jeito de viver...
Ensina-me, Senhor.
Não deixe que eu me perca em mim
Faz com que eu me ache em ti e que tu sejas meu jeito de viver.
Sou tão pequena, tão frágil e insignificante diante de sua grandeza,
Mas que seja também diante dela que eu me faça grande, forte e encontre sentido para a vida e o além dela.
Não sei se é da época ou se é do coração ou se é de um cantinho escondido do coração que só nessa época é revelado.
Sei que é saudade de tudo que ficou longe, de tudo que é impossível reviver. É melancolia, é nostalgia...
Tristeza que cansa, tristeza que doe. Dificuldade absoluta de compreender as mudanças.
O tempo que sempre esteve em movimento foi (des)percebido apenas por mim?
Sensação de que não me adaptei e não vou me adaptar. E a pior delas é de nem poder imaginar que uma máquina futurística capaz de encaminhar-me à passados agradáveis traria de volta a alegria do tempo oficialmente já vivido.
Eu vou caminhar assim como todos: sem olhar, sem pensar demasiadamente no que passou.
Vou caminhar.
Me responsabilizar por fazer passar mais alguns tempos...
Há tempos o que vemos e vivemos no mundo é o preconceito, o juízo prematuro e injusto da identidade alheia. Diversas vezes pensa-se estar exposto na cara, nas vestes, e na tonalidade da pele o valor de cada um. Não se erra porque é humano, mas sim porque se tem pele escura. A cor da pele diversas vezes expõe todas as demais características prováveis de uma pessoa.
É incrível e poderia ser sábio se não fosse insanidade humana a capacidade leiga de a partir da cor da pele levantar (pseudo) dados criminais, dados a cerca do caracter, posição social, entre tantos outros valores de um ser humano. O comportamento típico do negro é rotulado muitas vezes como o pior possível, por mais que esse não faça nada além do que agir como tantos outros de pele branca, amarela, verde ou azul.
O que é correto? Talvez seja permanecer no direito de ficar calado por não haver necessidade alguma de explicar a presença de melanina na pele e morrer como inocente ou simplesmente andar calçado, bem vestido, limpo e fazer cara de intelectual, para viver e não ouvir falarem que ainda é um homem incorreto. Não basta ser, tem que parecer ser o que uma sociedade preconceituosa não procura encontrar.
Lídia Rodrigues
P.s :Sobre: Eu, um homem correto. In: Raízes da morte. São Paulo: Ática, 1977.
Ao som do Bolero de Ravel no saxofone do Jurandir, o pôr do sol era esperado por muitas pessoas (mas muitas mesmo). Com fome, me aproximei de um charmoso barzinho quando na entrada fui abordada. Era necessário pagar um dinheirinho, pois o sol ia se pôr ao tal som. Não me contive e logo entrei numa atmosfera de pensamentos... Se eu não pagasse o sol não iria se pôr naquele dia? Claro que ia! Centenas de pessoas (milhares ao longo da Praia do Jacaré, talvez) iriam pagar. Meu dinheirinho não era nada diante do quanto se podia arrecadar daquele povo. Coloquei a mão no bolso e saquei meus míseros R$ 5,00 (e por conta disto alguém acabou ficando sem lembrancinha). Entrei e prossegui na mesma atmosfera. Quantos rostos felizes! Emocionados com tudo aquilo. E lá vinha Jurandir com seu saxofone se equilibrando no barquinho guiado por um mocinho e suas muletas encostadas. O sorriso dos rostos felizes agora ia de orelha a orelha. Emocionados, os olhos seguravam algumas lágrimas, os casais mais apaixonados e as câmeras miravam para flagrar a cena. O sol começava a descer de seu pedestal lá no céu para dar espaço para a lua, e Jurandir lá aproveitando o show do sol para fazer o seu. E eu pensando... Justo com o sol que nasce para todos e nessa mesma condição se põe? E nós pobres? Até isso querem nos tirar agora?
Não, porque eu dou valor no sol que se põe sem trilha sonora todos os dias no pé da serra atrás da minha casa. O sol se põe todos os dias e lá está Jurandir a tentar acompanhar. Quanto a platéia,alguns merecemmesmo pagar por aquilo que se tem de graça paraaprenderaver. Fazer o quê se para muitos até emoções tem valor empregado no dinheiro! Por sinal, bolero de Ravel é um agradável ritmo, embora repetitivo. O qual tem vida sob o sol a se pôr. A Praia do Jacaré é um bonito lugar para se fazer boas fotos. Mas o sol é sol em qualquer lugar, se pondo mais cedo ou mais tarde, com trilha sonora ou não. Seu espetáculo é sempre divino. De qualquer forma, Jurandir, artista de belíssimo talento, não podia ter escolhido melhor iluminação e pegou carona no show certo! Pena o sol não poder lhe ensinar como brilhar com tamanha intensidade todos os dias. ___________________________ João Pessoa - PB
Na praia do Jacaré
Confira, mas não deixe de pensar!
É impossível que acertes sempre, mas o importante é que saiba o que é o erro e o que é o acerto, por mais que isso não lhe faça optar sempre pelo correto, mas que tu tenhas sempre a capacidade de não repetir o que lhe fizeste mal.
Há três tipos de erros que tu deves saber reconhecer:
o que é errado no ponto de vista dos outros,
o que é errado
e o que é errado ao teu ver
A gente ama essas coisas simples, comuns.
Isso que nem é uma "pessoa".
E a gente se apega e esse amor pega
E essa "coisa" deixa de ser coisa, deixa de ser simples, comum.
Deixa de ser Ser vivo e passa a ser amor.
Amor que vive.
Amor que eterniza.
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Ela sabia o gosto das minhas lágrimas...
Sabia que embora o motivo fosse bobo ou nem houve motivo, eu chorava e ela sentia.
Ela não me entendia mas me sentia.
=================== morrendo de saudades ... ===================